Samir Salman, um dos idealizadores do Encontro Brasileiro de Cuidados Paliativos, fala sobre suas expectativas para a 3ª edição do evento

samir salman entrevistaUma oportunidade para troca de experiências entre os serviços existentes no país – é assim que Samir Salman, superintendente do Hospital Premier e idealizador do Encontro Brasileiro de Serviços de Cuidados Paliativos, criado em 2012, vê a 3a edição do evento, que acontecerá entre os dias 21 e 23 de setembro.

O médico aponta que o evento não pretende comparar serviços, mas agregar saberes
e compartilhar conhecimento sobre a área que, segundo ele, tem crescido muito nos últimos anos. O primeiro encontro, em 2012, reuniu cerca de 30 serviços de Cuidados Paliativos. O segundo, também no âmbito da Cinemateca, reuniu aproximadamente 70 serviços. A expectativa de Salman é de que este ano este número aumente.

Qual é o principal objetivo do III Encontro Nacional de Serviços de Cuidados Paliativos?


O principal é a troca de experiências entre serviços de Cuidados Paliativos no país. Esse é o objetivo central. Experiências e vivências. E ressalto a importância, se tivermos êxito, em buscar os estudantes também, estimular as ligas de Cuidados Paliativos.

Qual a maior diferença entre esta edição e as anteriores?


Primeiro, este encontro é muito mais denso. Da primeira vez, conseguimos reunir cerca de 30 serviços; na segunda, em torno de 70. A expectativa é que a gente tenha um número maior de serviços implantados no Brasil. Além disso, é a reafirmação de um compromisso com as boas práticas dos Cuidados Paliativos.

Quais são suas expectativas para o Encontro deste ano?

Acho fundamental que haja encontros como esse para o reconhecimento dos cuidados paliativos Minha expectativa é sempre a mais otimista possível, mas eu não trabalho com a ideia da quantidade. Trabalho, sim, com a ideia de importância que esse assunto tem para a sociedade brasileira e para os profissionais da área da saúde.
Esse encontro está sendo realizado pelo Hospital Premier, pela Faculdade de Medicina de Itajubá, com o apoio institucional do CREMESP e da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, então eu acredito que este encontro só vai existir e só pode acontecer porque muita gente se doa, muita gente colabora. A gente tem que lembrar que o encontro não tem o patrocínio de ninguém. Ele conta com uma verba que tem uma parte vinda das inscrições o restante bancado pelo Hospital Premier e Faculdade de Medicina Itajubá.

As edições anteriores do Encontro aconteceram paralelas a outros eventos realizados pelo Premier. Por que este ano será uma atividade independente?


Por causa das circunstâncias. Os outros encontros aconteceram no ambiente do Ciclo de Reflexão de Cinema (Sessão Averroes), que era fruto de uma parceria com a Cinemateca. Como a parceria não está mais vigente, optamos por fazer um encontro de serviços independente.

No caso de continuidade da parceria, este encontro aconteceria nos mesmo moldes dos anteriores?


Não sei, acho que não... Esta edição do Encontro se caracteriza pelo esforço do Hospital Premier enquanto praticante dos Cuidados Paliativos, enquanto um hospital que tem os Cuidados Paliativos como prática usual. Uma das principais intenções deste evento é criar uma rede de colaboração entre os serviços atuantes no país.
Entendemos que essa troca de experiências e vivências pode vir a colaborar, e muito, com a possibilidade de estarmos ao mesmo tempo transmitindo e recebendo conhecimento. Agora, o fato da parceria momentaneamente não existir não impede que amanhã ela esteja em um outro contexto, claro. O encontro busca exatamente isso: fortalecer relações. O Hospital Premier atua como catalisador e busca o tempo todo dar o protagonismo para quem está na linha de frente dos serviços de Cuidados Paliativos. O contexto da Cinemateca era outro, era um ambiente de cinema, de reflexão, que oxalá um dia volte.

Promover um encontro independente, sem estar associado a outras atividades, fortalece o debate?


Sem dúvida. Aqui você terá pessoas que estão pensando os Cuidados Paliativos, profissionais que estão na linha de frente deste tipo de serviço, além dos estudantes de medicina que integram as ligas de Cuidados Paliativos... É uma junção de atores que vai formar um mosaico entre quem está teorizando e quem está na prática.
Temos esperança de criar um ambiente de colaboração neste sentido, principalmente porque não se trata de comparar os serviços melhor estruturados com outros que têm uma estrutura menor. Um exemplo é que, às vezes, em determinada cidade do país, apenas um médico e uma enfermeira tocam os Cuidados Paliativos, e eles têm tanta importância quanto um serviço composto por mais profissionais. A ideia não é comparar, mas estimular.

O senhor acha que os serviços no Brasil estão sendo devidamente reconhecidos?


Não posso fazer esta análise, porque está acima da minha compreensão. Eu atuo na saúde suplementar, que é financiada pelos planos de saúde privados. Mas grande parte da saúde está sob a gestão pública, então uma das razões deste encontro é construir essa rede de reconhecimento. Percebo que a saúde como um todo é ancorada por uma remuneração que reconhece o material, medicamento e equipamento de tecnologia e reconhece pouco o trabalho humano.

Como você avalia a evolução dos serviços de CP no Brasil desde a primeira edição?


Com certeza a gente vem num avanço importante, graças à dedicação de vários profissionais que militam na área. É um intelectual coletivo, muita gente trabalhando no sentido de trazer para o país a questão dos Cuidados Paliativos da melhor forma possível. Entendo que o Cuidado Paliativo é cada vez mais aceito.
Não posso dimensionar, mas percebo que cada vez mais os gestores reconhecem a importância dos Cuidados Paliativos como uma prática médica que traz mais dignidade ao ser humano e o acolhe em sua multidimensionalidade. Esta é uma visão de alguém que lida com Cuidados Paliativos diariamente, mas acho que ao longo desses anos, com certeza absoluta, a prática cresceu muito e os serviços também.
Percebo um avanço quantitativa e qualitativamente. Os Cuidados Paliativos vêm crescendo, como eu disse, graças ao esforço de muitos profissionais que militam na área da formação. Posso destacar o Instituto Paliar, a Casa do Cuidar e vários outros que vêm ajudando a construir a história do Cuidado Paliativo brasileiro.

Quando se propõe que profissionais se reúnam para discutir a prática, o que, em essência, está sendo discutido?


Estamos discutindo quais formas estão sendo aplicadas. Porque você tem que entender que o modelo está circunscrito àquilo que é possível. Às vezes os recursos limitam a atuação dos profissionais. Então o que a gente vem discutindo é aumentar o reconhecimento deste papel, deste profissional. Acho fundamental que quem remunera saúde, quem discute valores de procedimentos, reconheça nos cuidados paliativos uma prática que está essencialmente ancorada nos serviços profissionais humanos. Para mim, o cuidar é tão importante quanto o curar – ou quem sabe até mais.

 

Texto: Ruam Oliveira /OBORÉ /Premier Hospital
Edição: Lílian Liang 

Grupo Mais