A espiritualidade nos Cuidados Paliativos

Saúde e espiritualidade eram assuntos tratados, até pouco tempo atrás, de forma distinta e com pouca ou quase nenhuma relação. Cabia à medicina observar a saúde; aos sistemas religiosos, por sua vez, caberia cuidar da espiritualidade. De acordo com a Dra. Vanessa da Costa, coordenadora do núcleo de saúde e espiritualidade do Hospital Premier, tudo isso está mudando: os temas começam a aparecer inclusive na grade de alguns cursos de graduação em medicina.

Segundo o conceito de Cuidados Paliativos definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as ações referentes a estes cuidados incluem não somente aspectos físicos como também psicológicos, emocionais e espirituais. A chamada “Dor Espiritual”, descrita como um desconforto sentido pelo paciente frente a perspectiva de perda da identidade ou diante da possibilidade de morte tem sido fonte de estudos no âmbito da medicina.

“Esse medo e insegurança em face do desconhecido gera sofrimento para a pessoa que está doente e isso se constitui na dor espiritual. E também este distanciamento da vida que teve antes, de toda sua biografia anterior. (...) A gente observa em muitos pacientes aqui que esta dor espiritual não é tão clara, ela se manifesta muitas vezes de maneira indireta, através de agressividade diante da equipe, na recusa em fazer algum tipo de tratamento etc.”, explica a Dra. Vanessa.

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A Dra. Vanessa da Costa escreveu artigo sobre saúde e espiritualidade na sétima edição da revista Prata da Casa. 
Foto: Ruam Oliveira / OBORÉ / Hospital Premier

A espiritualidade pode ou não estar associada a um sistema religioso podendo ser “ teísta, não-teísta ou mesmo ateísta, uma vez que até mesmo a não crença no transcendente é uma forma de significar o imanente, o mistério do ilimitado, sem uma explicação religiosa. É no exercício da espiritualidade de forma prática, reflexiva, contemplativa ou profundamente meditativa que há a possibilidade de encontrar-se o bem-estar e a paz interior na nossa vida diária, diria que até de forma independente da possibilidade de haver recuperação da saúde, ou seja, na fase terminal da nossa vida ou estando sob cuidados paliativos”, explica o monge budista Ryozan, que também faz visitas aos pacientes do Premier. Ele define a espiritualidade como “uma dimensão do ser humano”.

Em artigo publicado na revista Prata da Casa 7: escritas do cotidiano de uma equipe que cuida, a Dra. Vanessa da Costa aborda a espiritualidade a partir de um relato de caso de um homem de 60 anos, paciente em cuidados paliativos, diagnosticado com a Síndrome do Encarceramento (Locked-In) – onde o paciente está plenamente consciente, mas não consegue realizar nenhum tipo de movimento. Partindo do interesse demonstrado pelo paciente, procurou-se avaliar a Dor Espiritual e “tratá-la com o auxílio de voluntários religiosos”, como é o caso do monge. 

A médica destacou que a dor espiritual sentida não está restrita apenas ao paciente, mas envolve familiares, entes queridos e também a equipe de saúde. Ela apontou que uma das dificuldades encontradas em seu estudo foi justamente o desconhecimento da equipe sobre sua espiritualidade/religiosidade.

Fundado há aproximadamente oito meses, o núcleo de saúde e espiritualidade do Hospital Premier é fruto, em grande parte, deste estudo de caso conduzido por Vanessa. A iniciativa de cria-lo partiu da observação de que alguns sofrimentos não são aliviados ou tratados com medicação padrão. Atualmente diferentes grupos religiosos – do budismo, espiritismo, catolicismo etc - visitam o Hospital Premier para prestar apoio espiritual aos pacientes.

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Ivonilde Prestes, 76 (à esquerda) e Clarinda Dutra são voluntárias e fazem parte de um grupo católico que visita o Premier
Foto: Ruam Oliveira / OBORÉ / Hospital Premier

 

Clarinda Dutra Ramos, de 88 anos e Ivonilde Prestes Magalhães, de 76, são as encarregadas de trazer a comunhão aos pacientes católicos do segundo andar no Premier. Elas fazem parte de um grupo de aproximadamente 16 pessoas que visitam o Hospital. “A gente fica triste por aqueles que se vão, claro, porque nos apegamos a eles, mas também saímos abastecidas de Deus ao fazer este trabalho”, disse Clarinda, uma das primeiras a fazer as visitas.  “Eu reflito muito durante a semana. No começo quando cheguei aqui questionei muito a Deus: ‘por que estas pessoas estão assim?’, mas hoje não, já não penso dessa forma”, disse Ivonilde que é professora aposentada.

Outros grupos religiosos também fazem parte do quadro de visitas do Hospital. O monge Ryozan, por exemplo, atua desde setembro de 2015 no Premier. Para ele, cuidar da espiritualidade de alguém pode também ter um aspecto mais global, representando um cuidado simultâneo com a saúde social e a interconexão que há entre os seres vivos. “Mais do que as provas científicas acadêmicas da efetividade do papel da espiritualidade, é no dia a dia com os pacientes que constatamos os reais benefícios da espiritualidade na forma como convivemos com as nossas circunstâncias, sejam quais forem.” Segundo ele a espiritualidade não lida com otimismo fantasioso, mas sim com o realismo, como cada um de porta para minimizar as situações adversas.

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 Monge Ryozan, representante budista que visita o Premier semanalmente. 
Foto: Arquivo Pessoal

 “Talvez a minha principal descoberta tenha sido que há algo que é superior à própria saúde, pois essa  eventualmente pode nos abandonar para não mais voltar, que é a nossa paz interior. E essa paz propicia que a  nossa serenidade possa estar presente até mesmo num estado terminal, ou num estado vegetativo e não  cognitivo num corpo aparentemente sadio, ou até mesmo num estado onde as nossas funções cognitivas estão  preservadas, mas num corpo que é um cárcere”, disse.

Segundo o texto da Dra. Vanessa da Costa, espiritualidade e religiosidade “são componentes que trazem  sentido e propósito, auxiliando na interpretação que as pessoas fazem sobre suas vidas e experiências pessoais”  e por esta razão são tão importantes de serem observadas. 

Acesse o PRATA DA CASA 7

 
Texto: Ruam Oliveira
Edição: Ana Luisa Zaniboni Gomes

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