Entrevista: “Vida é algo que todos procuram, mesmo quando diante da morte”, os impactos e inspiração dos jardins de Soraya no Premier

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Gleice Salman (à esquerda) e Fátima Salman são as responsáveis pela implementação dos jardins de Soraya no Premier.
(Foto: Ruam Oliveira/OBORÉ)

Quem visita o Hospital Premier na Vila Cordeiro, em São Paulo, se depara, no momento de sua entrada, com uma variedade enorme de plantas e flores. É só olhar para os lados.  Rodeando o prédio do hospital, videiras, pés de Maçã, Azeitona, Pimenta, Bananeiras e outras tantas espécies de frutos e flores compõem, cada uma em determinada área, Os Jardins de Soraya, espaço criado para abranger o conceito que o Premier carrega desde sua fundação, que é de cuidar do paciente em sua totalidade.

Batizado em homenagem a dona Soraya, matriarca da família Salman, os jardins são um local de tranquilidade e de promoção do convívio social entre pacientes, funcionários e equipe multiprofissional. Idealizado pela paisagista Fátima Salman e pela gerente de hotelaria do Premier Gleice Salman, com base nos projetos do arquiteto-paisagista Roberto Burle Marx, os jardins são um dos fatores determinantes que levam familiares a transferir seus entes queridos para o Premier.

O intuito principal deste espaço verde, de acordo com Gleice Salman, é proporcionar bem estar aos pacientes e seus familiares. É, segundo ela, permitir que tenham ocasiões de privacidade e de reflexão sobre o momento em que vivem e sobre a fase de transição e fim do ciclo de vida. “Hospital é um lugar de sofrimento. As pessoas que estão aqui não vieram porque quiseram ou decidiram ‘passar um dia no hospital’, então o máximo de conforto que puderem ter é muito importante”, aponta. 

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Há aproximadamente quatro anos o projeto teve início e de acordo com a paisagista Fátima Salman a intenção é que ele vire "uma florestinha"
(Foto: Ruam Oliveira/OBORÉ)

De onde veio a inspiração para a criação dos Jardins de Soraya?

Fátima Salman: Nós nos inspiramos muito no trabalho do Burle Marx para construir aqui, e também pensamos muito em fazer algo que remetesse à infância dos idosos e fazê-los se sentir bem, como se estivessem em casa. Então colocamos muitas árvores frutíferas, várias flores, árvores que “chamassem” os passarinhos, sabe? Um lugar que pudesse promover essa integração entre a natureza, os animais e as pessoas. Queríamos um jardim sensorial e tropical.

Gleice Salman: Procuramos árvores que fossem nativas da mata atlântica. Espécies de plantas que trouxessem lembranças sobre a vida das pessoas que estão internadas. Tanto os cheiros quanto cores e imagens.

Para iniciar a construção, vocês fizeram uma pesquisa bibliográfica?

Gleice: Nós fizemos um estudo para saber quais eram as plantas que iriam se adaptar com o solo e quais funcionariam para o projeto. Procuramos plantas que dialogassem com o espaço do Hospital.

Fátima: Pesquisamos o que os idosos apreciavam em relação às plantas. Eles gostam muito de rosas, gardênias – porque tem um aroma gostoso – a dama da noite... Fomos integrando as coisas...

Vocês mencionaram que os Jardins são uma forma de evocar as lembranças dos pacientes enquanto eles estão aqui no Hospital. Além disso, os jardins possuem outra finalidade?

Gleice: O bem estar. O contato com a natureza é muito importante, principalmente porque ficar preso no quarto o tempo todo é muito difícil. Ter espaços verdes onde é possível relaxar e esquecer essas tristezas é muito bom, não só para os pacientes como também para os acompanhantes que, por terem um pouco mais de tempo ocioso, costumam pensar mais nestes assuntos tristes. Ter um local desses, aconchegante, com os passarinhos cantando, flores, a água... tudo deixa a pessoa mais relaxada e traz mais conforto. Um espaço reservado onde você possa até mesmo chorar e colocar para fora tudo o que você sente é de grande valor.

Acho que um diferencial deste Hospital acaba sendo o jardim, ele encanta as pessoas que vêm aqui porque a maioria dos hospitais não tem um espaço onde a pessoa possa tomar um sol, ver os passarinhos, encontrar um paciente com o outro...

Fátima: Ter uma vida social... Tem um pé de fruta que colocamos ali, um pé de acerola, que um dos idosos que anda de cadeira de rodas, o seu Milton, vai para colher as acerolas até mesmo com a boca! É muito legal. Ele ama. No espaço que fizemos para os passarinhos, na parte de trás, chegamos a receber até mesmo pica-paus. É a coisa mais linda.

Gleice: A importância destes jardins é realmente proporcionar um espaço de convivência onde os pacientes e acompanhantes possam interagir com outras pessoas e não se sentir como doentes presos em um hospital.

A maioria dos hospitais não possui espaços como este e os pacientes passam bastante tempo em locais fechados, o que não ajuda muito na reabilitação da pessoa.

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 Funcionários aproveitam o horário de almoço para descansar no Gazebo, um dos espaços preferidos de quem visita os jardins.

(Foto: Ruam Oliveira)

Por que o nome ‘Jardins de Soraya’?

Gleice: Em homenagem à Dona Soraya, matriarca da família Salman, e a toda sua história. Por este hospital ser um hospital familiar e por ela ter sido uma grande mãe, os filhos e toda a família quiseram que ela fosse sempre lembrada...

Fátima: Ela amava o verde e as plantas.

Passeando pelos jardins é possível perceber a personalidade da Dona Soraya?

Fátima: Acho que sim. Ela transmitia muita paz, muito equilíbrio para nós e o jardim tem muito disso. Tenho certeza absoluta. Nós temos um pé de manga ao lado da placa que, se você visse como ele ficou maravilhoso... Víamos a minha mãe ali. De verdade. Aquele pé de manga foi a planta que ficou mais espetacular...

Além dos pacientes, a quem mais os jardins se destinam?

Gleice: A todas as pessoas que visitam o hospital.

Quando vocês idealizaram este espaço pensaram primeiramente nos pacientes, mas também levaram em conta outras pessoas que não estão internadas aqui? Houve esta preocupação?

Gleice: A preocupação foi encantar a todos, não foi especificamente e somente aos pacientes. Por ser um hospital obviamente pensamos em construir um espaço que fosse realmente agradável, para que as pessoas pudessem circular e espairecer.

Hospital é um lugar de sofrimento. As pessoas que estão aqui não vieram porque quiseram ou decidiram ‘passar um dia no hospital’, então o máximo de conforto que puderem ter é muito importante.

O jardim é vida e não fica estático da forma como colocamos. A planta em si é viva e ela se transforma, flora, cresce, atrai passarinhos e borboletas... Isso transforma o espaço em algo vivo e vida é algo que todos procuram, mesmo quando diante da morte.

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A depender das estações os jardins acabam se transformando completamente em outro.
(Foto: Ruam Oliveira/OBORÉ)

 

Você acredita que os jardins auxiliam nesta fase de transição, neste final de ciclo, por assim dizer?

Gleice: Acredito sim. Diante da morte – e quem está vivo não sabe dizer como ela é – tudo fica mais difícil. Ou se está perdendo a própria vida ou a vida de um ente querido e ter um espaço de tranquilidade pode ajudar a amenizar esta dor.

Qual o impacto percebido destes jardins nos pacientes?

Gleice: Eles ficam sempre muito felizes principalmente aqueles que tiveram algum tipo de contato com plantas antes de virem para cá.

Os jardins são um fator determinante para que alguém decida vir para o Premier?

Gleice: É um fator muito importante que colabora com o proposta terapêutica do Premier. As pessoas ouvem falar sobre todo o nosso trabalho assistencial, que é diferenciado. Os jardins ajudam no processo de reabilitação ou mesmo no processo de finitude, criando uma ambiência adequada para nossos pacientes.

Fátima: Uma coisa é você chegar em um lugar que é tudo cimento, tudo neutro, sem nenhum verde. Outra coisa é se deparar com estes jardins...

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Seu Milton é um dos visitantes assíduos dos jardins de Soraya. Todos os dias aparece para tomar sol e conversar com quem estiver por perto.
(Foto: Ruam Oliveira/OBORÉ)

E no futuro, o que eles podem se tornar? Existem planos neste sentido?

Fátima: Queremos transformá-lo em uma florestinha, com muitas árvores que dão frutas...

A Dona Soraya conheceu os jardins? Qual foi a reação dela?

Fátima: Ela amava cada projeto. Na casa dela tinha um jardim e ela sempre gostou do barulhinho das águas, dessa sensação de tranquilidade...

Você acha que ela se sentiria representada aqui nestes jardins?

Fátima: Com certeza. 

 

(Texto e Entrevista: Ruam Oliveira/OBORÉ Projetos Especiais)

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