Sessão Averroes de julho realizou discussão sobre discriminação à pessoa idosa


Texto: João Paulo Brito
Foto: Akira Tsukamoto
fonte www.obore.com

O Índice de Desenvolvimento Humano do Município, lançado há poucos dias, ressalta as previsões já anunciadas por especialistas e de amplo conhecimento entre os profissionais da saúde: o Brasil caminha para um cenário de envelhecimento populacional nunca antes registrado em sua história.

Apesar de o país ainda ter o chamado bônus produtivo, com apenas 12,5% de sua população idosa (a partir de 60 anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde), as estimativas indicam que em cerca de três décadas o Brasil estará mais parecido, demograficamente, com a Europa e Japão (com mais de 20% da população madura) do que com países latino-americanos e africanos.

A Sessão Averroes, realizada nesta terça (30), na Cinemateca, antecipou este tema que possivelmente será uma das principais discussões sociais no Brasil pós 2040, onde, pela primeira vez, o número de idosos será maior que a porcentagem da população jovem.

Escolhido a dedo, o filme “Late Bloomers – o amor não tem fim”, que narra a história de um casal, com 30 anos de matrimônio, que passam a enfrentar problemas conjugais por conta do envelhecimento, foi a peça inspiradora para a discussão.

“Não me parece que seja um acaso que esse filme seja constituído por um elenco global: tem uma diretora francesa, de nascimento de origem grega; entre os protagonistas, um ator americano e uma atriz italiana, cuja carreira se fez nos EUA; vários atores britânicos; e é uma produção franco-belga. Ou seja, é uma discussão que está posta no chamado mundo desenvolvido, mas que aponta muito rapidamente para um diálogo com países emergentes”, apontou o jornalista Milton Bellintani.

Convidado para compor a Mesa de Reflexão, o jornalista Guilherme Alpendre, diretor-executivo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), ressaltou como é comum a sociedade negar ao idoso um debate qualificado, concordando com tudo o que o velho diz sem questioná-lo ou contrariá-lo. Tal postura acarreta em discriminação e não desenvolve a alteridade da pessoa idosa, segundo ele.

“Se a tolerância com os velhos é entendida assim, como uma abdicação ao diálogo, melhor seria dar a esta ‘tolerância’ o nome de banimento ou discriminação”, enfatizou Guilherme, citando um trecho do livro “Memória e Sociedade – lembrança de velhos”, de Ecléa Bosi.

Também convidado, o arquiteto e diretor da Escola da Cidade, Ciro Pirondi, por sua vez, apontou para o despreparo das cidades da América para acolher uma população envelhecida. Segundo ele, além da falta de planejamento urbano voltado para este fim, os problemas hoje sentidos são frutos de um processo da colonização destrutiva e predatória.

“Essas grandes manifestações que ocorreram partem da observação das deficiências da cidade. Está todo mundo acordando para perceber, afinal, a cidade que construímos. (...) A cidade foi feita só como lugar de escoamento de mercadoria para produzir dinheiro e riqueza para poucos,” apontou.

Responsável pela mediação da conversa entre a Mesa e o público, o médico David Braga Jr., gerente da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas, também contribuiu com a discussão apontando a falta de geriatras nos hospitais brasileiros, já que estes profissionais têm preferido o trabalho em ambulatórios por ser um ambiente “menos agressivo”.

David, que foi secretário de saúde e diretor de planejamento e gestão em Campinas e Indaiatuba, também fez crítica ao que chamou de “o pior de todos os ambientes de altíssima tecnologia” e “câmara de tortura para velhos”: a UTI.

Decorrentes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as Unidades de Terapia Intensiva surgiram para evitar que os soldados americanos morressem em campo de batalha. Aviões eram equipados com a tecnologia disponível na época e os fisiologistas mantinham os jovens vivos pelo menos até que chegassem em território americano.

“Então, toda essa parafernália tecnológica que foi inventada a partir de um conceito de combate a doenças infecciosas e a manutenção da sobrevivência, em qualquer condição, para uma política de guerra, está sendo despejada em cima das pessoas com mais de 60 anos”, finalizou David - que, inclusive, já atuava como médico quando os hospitais brasileiros começaram a ter suas primeiras UTIs, na década de 1970.

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