Professor José Eduardo Siqueira discute bioética na formação

siqueira 02A palestra de encerramento do III Encontro Brasileiro de Serviços de Cuidados Paliativos foi proferida na noite do dia 22 de setembro pelo cardiologista e docente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, José Eduardo Siqueira. Bioeticista, o médico é assessor da Redbioética/UNESCO para a América Latina e Caribe, membro da International Association of Bioethics e uma das grandes referências na área. 

Para discorrer sobre o tema “Metas e desafios da Bioética no Brasil”, Siqueira elegeu três eixos fundantes: formação, institucional e político.

Na questão da formação, o professor enfatizou como o ensino de medicina no Brasil tem formado grandes especialistas técnicos e deixado de lado o aspecto social. “Formamos médicos para tratar doenças, não para cuidar de pessoas que, eventualmente, ficam doentes”, afirmou. “Nossos futuros médicos precisam enxergar as pessoas como seres biográficos”.

Siqueira refere-se também ao fato de que, principalmente na pós-graduação/especialização, as faculdades estão formando “pessoas que sabem quase tudo de quase nada”.  Para ele, os cursos estão desenvolvendo indivíduos esquecidos da multidimensionalidade do ser humano, principalmente por conta da “fragmentação do ensino” na qual os alunos escolhem aprender apenas sobre aquilo que gostam. “Precisamos convencer os nossos estudantes de que é impossível conhecer a parte sem conhecer o todo. Convencê-los de que antes de serem especialistas, precisam ser médicos e, antes disso, serem cidadãos”, disse.

O bioeticista citou um estudo realizado em 2010 junto a alunos dos 5⁰ e 6⁰ anos da graduação em Medicina sobre os temas ausentes em seus currículos. Entre os resultados obtidos, 83% declararam não ter informações sobre cuidado a pacientes com doenças terminais. “Nossos cursos precisam mudar o paradigma do curar para o de cuidar”, disse.

Diante desse cenário, ele citou como os principais desafios para o ensino de bioética no Brasil a falta de docentes qualificados no tema, a carga horária curricular insuficiente e a fragmentação do conhecimento na grade curricular dos cursos.

Segundo ele, essa falta de formação em bioética leva a uma ética da realização pessoal em detrimento da alteridade. “Os alunos que entram em Medicina o fazem por motivos altruístas e, no fim do curso, tornaram-se apenas técnicos. Vocês que fazem cuidados paliativos, que olham o outro e o acolhem, são as pessoas que irão salvar o mundo”, afirmou.

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O professor José Eduardo Siqueira apontou o baixo nível de formação de docentes como um grande desafio a ser transposto quando o assunto é bioética. Foto: Adyr Akira

 

Outro eixo no qual o palestrante se ancorou para abordar os desafios da bioética foi o campo institucional. Além das já reconhecidas ações de educação continuada voltadas aos profissionais de saúde, gestores e funcionários, Siqueira defende que é preciso que os membros do corpo clínico de um determinado estabelecimento de saúde reconheçam as contribuições que os Comitês Hospitalares de Bioética (CHB) podem oferecer, principalmente em momentos de decisões.

No campo político, a corrupção institucionalizada - tanto no executivo, quanto legislativo e iniciativa privada, aliado ao fato de que o orçamento público está sendo usado a serviço do capital estrangeiro - tornam os desafios na bioética ainda mais complexos, diz o bioeticista, pois é que nascem mentalidades totalmente contrárias ao exercício da ética.

Citando pesquisa realizada em julho de 2017 pelo Instituto Ético em parceria com o Datafolha, Siqueira ressalta que 75% dos jovens brasileiros não se preocupam com a ética desde que levem vantagem no que estão fazendo. Segundo o mesmo estudo, mais de 50% deles concordam que “não importa o que eu faça, a sociedade sempre será antiética”. Para o médico, essa percepção dos jovens está relacionada ao momento político do país e ao assolamento do ensino público, “fatores que corroboram para que o eixo político torne os desafios na ética e na bioética ainda maiores.”

O III Encontro Brasileiro de Serviços de Cuidados Paliativos aconteceu entre os dias 21 e 23 de setembro, em São Paulo, e teve como tema central os dilemas da bioética na prática assistencial. Participaram das atividades técnicas e culturais cerca de 160 profissionais da saúde oriundos de serviços públicos e privados de várias partes do país.      

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